domingo, 2 de outubro de 2011

Mensagem para refletir

 
Existem coisas na vida que são facilmente explicáveis, outras nem tanto, e para algumas, nem sequer existe explicação possível, pelo menos neste plano de vida.
O funcionamento de um Terreiro ou templo espiritual, onde se praticam cultos e ritos aos Orixás e seus falangeiros, é algo de muito complexo. Toda a sua orgânica é recheada de significados, tudo faz parte de um mecanismo de engrenagens que trabalham para o mesmo fim. Mas por vezes, e embora faça, nem tudo parece fazer sentido...
Há um tempo, uma reportagem feita a um dirigente espiritual de um Terreiro, o Babalorixá do mesmo, foi mostrando e explicando aos repórteres, o funcionamento do seu templo, falando que tudo é planeado para que haja sempre a maior organização possível, pois sem isso, todo o Terreiro se tornaria um caos, incluindo o próprio ritual.

E, depois de terem admirado todo o Terreiro, de terem visto os “filhos” da casa nas suas tarefas, e de terem assistido a um ritual, eles perguntaram:

- Como o senhor consegue manter toda esta organização? Tudo tão perfeito?! Até o próprio espaço é bonito, limpo. E mesmo nós que não percebemos nada do assunto, nos sentimos bem dentro do Terreiro.

- Bem, para começar, devo dizer que todos têm tarefas e responsabilidades atribuídas, todos sabem qual é o seu lugar, ou pelo menos têm obrigação disso.
Desde os que fazem a limpeza do espaço, os que são responsáveis pela preparação das oferendas ritualísticas, os que recebem e encaminham as pessoas novas, os que guardam os utensílios e materiais necessários, os que ajudam na administração e manutenção, aos que têm ordem de mando, e que são também ao mesmo tempo, os médiuns de desenvolvimento, os cambonos e médiuns da corrente, e os que tocam os instrumentos sagrados, todos zelam pelo bom funcionamento do Terreiro, ou pelo menos, e mais uma vez digo: Têm obrigação disso!

- Talvez seja por isso que tenha tantos “filhos” e tanta gente nova a assistir. O Terreiro está sempre tão cheio assim?

- Gente nova está sempre a aparecer. É no meu ver, a gratidão do “astral” para comigo e para com todos os que fazem parte da nossa comunidade, pela honestidade e sentido de justiça com que nos entregamos aos nossos trabalhos.
Quanto aos “filhos” da casa, não são assim tantos.

- Quer dizer que tem poucos “filhos”? Mas contamos imensos.

- Pois... deixem-me explicar as coisas de outra maneira:
Tentem imaginar o Terreiro como um enorme relógio de corda. Esse relógio para funcionar bem, primeiro que tudo precisa que lhe dêem corda. E eu dou a corda.
Depois, precisa que todas as engrenagens e mecanismos, funcionem bem e estejam sincronizados. Por isso, é necessário que os médiuns da corrente estejam de mente limpa, e que tenham observado os devidos preceitos para o dia do ritual, e que os filhos que tocam os instrumentos sagrados, assim como os outros restantes, que cantam os pontos sagrados, batem palmas, e dão apoio ao ritual, tenham também observado os devidos preceitos para o dia do ritual, estejam concentrados, e se entreguem de corpo e alma ao que estão a fazer, pois são eles que marcam o “tic tac” do relógio, que por sua vez vai interferir nos ponteiros que marcam as horas.
Ora, se tudo funcionar corretamente, o relógio vai dar as horas certas.

Mas, talvez não tenham reparado, durante o ritual, havia “filhos”, que supostamente deveriam estar a dar apoio, mas, uns não cantavam, outros não batiam palmas, outros nem sequer estavam a prestar atenção ao ritual, tinha quem havia ingerido muita bebida alcoólica pouco antes do inicio da sessão e alguns até trocavam impressões sobre assuntos diversos. Esses, são as peças soltas do relógio, não fazem parte das engrenagens do mesmo, e quando o relógio não dá as horas corretas, são eles os responsáveis por isso. E mais tarde ou mais cedo acabam mesmo por sair do mecanismo, e procurar outro relógio em que talvez se encaixem nas suas engrenagens.
Por isso, na verdade, “filhos” da casa são muito poucos.

Quantos se preocupam em fazer a limpeza do espaço a seguir ao ritual, para que as coisas fiquem limpas e asseadas?! Um pequeno grupo!

Quantos se preocupam em questionar, se é necessário algum tipo de ajuda referente ao funcionamento do Terreiro e dos rituais?! O mesmo grupo!

Quantos se preocupam em manter o silêncio e o respeito dentro da área do Terreiro, que é um espaço consagrado aos Sagrados Orixás e ao Criador?! O mesmo grupo!

Quantos se preocupam em observar e fazer observar as regras internas do Terreiro?! O mesmo grupo!

Quantos se preocupam em cultivar e estudar os ensinamentos teóricos que vão sendo transmitidos?! O mesmo grupo!

Quantos se preocupam em estarem presentes em todos os rituais sempre que lhes seja possível, sem escolherem apenas aqueles que mais lhes convém, pois têm consciência que a presença de todos, é importante para a sustentação dos trabalhos?! O mesmo grupo!

Quantos se preocupam, dentro das suas possibilidades e sem afetar a sua vida pessoal e profissional, em chegar o mais cedo possível, para ajudar na preparação dos trabalhos?! O mesmo grupo!

E por ultimo, quantos se preocupam em me telefonar no resto dos dias, apenas para perguntar se eu estou bem, sem me falarem dos seus problemas pessoais, e como hão de resolvê-los?! Ainda o mesmo grupo!

Então esses são os meus “filhos”. São as peças das engrenagens do meu relógio de vida, do meu Terreiro. Os outros como disse, são “peças soltas”.

Reflitam meus irmão de fé.
Rubio

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